segunda-feira, 26 de julho de 2010
2. O Sistema Militar Corporativo Português e as Reformas Pombalinas
Segundo a concepção corporativista, a sociedade era entendida como um organismo hierárquico, com seu funcionamento simbolicamente comparado ao corpo humano, necessitando, portanto, da total e irrestrita integração dos pés, o pobres, à cabeça, o Rei.
O poder central, a Coroa, concebido como instância superior, representava a cabeça e cabia a ele, portanto, garantir a harmonia do todo e zelar pela sua conservação. Mas não lhe cabe, em contrapartida, chamar a si todas a funções dos membros.#
Dessa forma, o poder real, ao utilizar-se dos poderes locais como força intermediária para fazer sentir sua ação sobre a população, deveria, em contrapartida, aceitar as regras e os usos locais tornadas, desse modo, fundamentais para o exercício do poder real.
Outrossim, essa concepção aplicada à estrutura militar fornece, portanto, um sistema entendido como uma trama articulada de relações mútuas entre diversos corpos militares. Esta articulação não pressupunha perda de autonomia, nem tampouco de homogeneidade.
Desse modo, o comandante do corpo militar assumiria o papel de cabeça; os oficiais, sargentos, cabos e soldados, os membros. Não diferente do conceito corporativista luso onde o Poder era, por natureza, repartido; e, numa sociedade bem governada, esta partilha natural deveria traduzir-se na autonomia político-jurídica dos corpos sociais, embora essa autonomia não devesse destruir sua articulação natural - entre a cabeça e a mão deve existir o ombro e o braço, entre o soberano e os oficiais executivos deve existir instâncias intermédias. A função da cabeça não é, pois, a de destruir a autonomia de cada corpo social, mas a de, por um lado, representar externamente a unidade do corpo e, por outro, manter a harmonia entre todos os membros.
De tal forma que, a importância dos corpos militares na América Portuguesa foi destacada pelo Secretário de Estado e Negócios da Marinha e dos Domínios Ultramarinos Martinho de Melo e Castro
Primeiro, o pequeno continente de Portugal tendo braços muito extensos, muitos distantes e muito separados uns dos outros, quais são meus domínios ultramarinos nas quatro partes do mundo, não pode ter meios nem forças com que s defenda a si próprio, e acuda ao mesmo tempo a prevenção e segurança de cada um deles; segundo, que nenhuma potência do universo por mais formidável que seja, pode, nem intentou até agora defender as suas colônias com as únicas forças do seu próprio continente; terceiro, que é único meio que até agora se tem descoberto, e praticado para ocorrer a sobredita impossibilidade foi o de fazer servir as mesmas colônia para a própria, e natural defesa delas: E na inteligência deste inalterável princípio, as principais forças que hão de defender o Brasil são as do mesmo Brasil.
Partindo, então, das instruções de Martinho de Melo e Castro, pode-se compreender melhor a lógica de um sistema corporativo onde as inúmeras forças presentes nas Colônias agiriam de forma conjunta com o objetivo único da defesa de seu território.
Assim a denominação de corpo militar se aplicava à reunião de “gente da guerra” , independente da arma a que pertencia, seja de artilharia, infantaria ou cavalaria. Este termo não se restringia somente às tropas regulares e pagas, mas também às auxiliares e ordenanças e as relações estabelecidas no interior desse conjunto das partes envolvidas.
Nesse ponto, é possível considerar que o Ultramar não copiou servilmente as legislações metropolitanas. Muito embora as tenha recebido, procurou-se adaptá-las as realidades locais, o que possibilitou o sistema administrativo apresentar várias fórmulas de acordo com a latitude e as potenciabilidades econômicas e demográficas dos domínios.#
Assim sendo, se o sistema administrativo metropolitano forneceu o modelo das instituições a serem estabelecidas nas províncias ultramarinas, por outro, a necessidade de intervenção local obrigou as diferenciações da ação política, fazendo com que o modelo originário fosse inevitavelmente modificado, e enriquecido com a experiência proveniente da vida local.
Em contrapartida, é a partir da segunda metade do século XVIII, em especial, com a presença do Marquês de Pombal no governo português, que essa estrutura muda em sua concepção e prática de poder político.
Anteriormente, como já foi citado, a natureza do poder real encontrava-se na comunidade, possuindo caráter corporativista. O que se percebeu a partir da segunda metade do século XVIII foi a transferência desse eixo para voluntarista, onde o poder político é concebido diretamente por Deus ao Rei e não mais pela comunidade.
Pode-se destacar uma nova perspectiva de governo que modificou todo o quadro político e social do Estado português. A partir do reinado de D. José primeiro, na segunda metade do século XVIII, atingiu-se um individualismo na administração do Império lusitano, tal qual Antônio Manuel Hespanha destacou
O individualismo – e o contratualismo que daí decorre – pôde dar origem a vários tipos de regime, por vezes, radicalmente diferentes quanto à maneira de entender as relações entre cidadãos e poder.
Nuns casos, o contratualismo veio a legitimar principados absolutos – como as várias manifestações de despotismo esclarecido típicas da segunda metade do século XVIII – por se entender que, no pacto social, os cidadãos tinham transferido todos os seus poderes originários para os governantes (contratualismo absolutista), ficando o príncipe livre de qualquer sujeição ou limite.
Assim sendo, foi de interesse de Pombal reformular, inclusive, o quadro de integrantes da administração do Império marítimo português. Era, uma mudança dos integrantes da Corte, de modo a colocar em franco andamento as reformas destinadas a alavancar o Reino português política e economicamente. Essa mudança na hierarquia dos principais nobres lusos era uma tentativa política portuguesa de retirar de Portugal a situação de segunda categoria em relações aos reinos europeus tidos como potências.#
Essa ação centralizadora da Coroa, refletiu diretamente no corpo militar que constituía boa parte da fidalguia portuguesa. Submeter a nobreza era, também, uma forma de assumir o controle sobre as forças militares de Portugal.
Muitos desses nobres militares ingressavam no Exército diretamente da vida civil, sem nunca terem vivenciado experiências no campo de batalha. Apesar de serem aptos à manusear armas e espadas e da educação que recebiam, não tinham conhecimentos sobre o comando dos corpos e subordinação.
A vinda de novas tropas para reforçar as forças armadas da América lusa fazem parte de todo o contexto de reestruturação de governo estabelecido por Pombal. Não obstante, a chegada de um novo comandante é, de fato, mais um aspecto centralizador e fiscalizador de suas ordens. O Tenente General Böhm representava não apenas um comandante militar, mas sim, mais uma ferramenta de fiscalização e controle sobre a Colônia e seus habitantes.
Era de grande necessidade defender o porto do Rio de Janeiro, em especial, pois a cidade se tornou capital num momento delicado para Portugal e seus domínios no quadro das relações internacionais; dentro do qual, acirrada a disputa ultramarina entre os demais Estados europeus, colocava-se o problema da preservação dos territórios coloniais, ou da defesa do “patrimônio” luso no ultramar.
O papel primordial da defesa da cidade, além de sua importância para a Coroa foi ressaltado por Pombal onde alega o Rio de Janeiro ser o maior
Empório do Brasil, pois tem este porto as circunstâncias de uma posição e defesa fortíssima e de uma barra incomparável. [...] esta importante dependência unida às já referidas mostra este Governo é a mais importante Jóia deste grande Tesouro. Aqui correm e correrão ao diante os mais importantes negócios, tanto da Coroa, como dos Vassalos; e assim, se deve contar como antemural dessas Províncias, de onde se podem socorrer e animar as outras.
Outrossim, era de grande interesse que se tivesse especial cuidado ao reparo das fortificações e à organização das forças de defesa da capital. No entanto, considerando que sua guarnição não era tão numerosa a ponto de resistir a eventuais ataques, além do fato de seus oficiais não possuírem grande experiência militar – pois, “só se aprende no exercício de muitas e sucessivas campanhas entre o fogo vivo”#, se fazia necessário o envio de tropas como reforço.
Não obstante, o Tenente-General Böhm foi contratado com dupla missão: deveria reorganizar militarmente a cidade e formar um exército para combater os espanhóis. Logo, a sua contratação demonstra a importância desse projeto para Pombal.
Muito diferente do estilo militar português, mais voltado para uma nobreza pouco afeita à disciplina, Böhm possuía características militares da “escola prussiana”, exemplo de disciplina e comando militar.
Teve, por objetivo, baseando-se em seus artigos sobre as campanhas de 1762, regulamentar a vida e a atuação dos militares em várias esferas. No geral eram relativas à subordinação, deserção, fuga no campo de batalha, aos conflitos entre os soldados, ao respeito às sentinelas, ao barulho e à embriaguez no serviço e ao casamento de oficiais e soldados.
Foram, então criados novos regulamentos, bibliotecas de guarnição e fundou-se o Real Colégio de Nobres, para a preparação de oficiais, melhorando-se assim o recrutamento nos diversos quadros, notadamente, os de artilharia e engenharia.
A síntese magistral a atuação do Conde Lippe e de sua reforma é feita por ele mesmo em carta ao Marquês de Pombal em 5 de setembro de 1764
O essencial da obra está feito. Existe um exército. Há leis e artigos de guerra. Um regulamento sobre a organização, composição, disciplina, serviço, instrução, justiça, pagamento e recrutamento da tropa. Estas leis acham-se em execução e são observadas habitualmente em quase três quartas partes dos regimentos. São disposições completas, inquestionavelmente novas, e de espécies diferentes, pelo que poderiam encontrar maiores dificuldades na adoção. Tudo se achava, todavia, em prática e removidos os seus obstáculos. Atualmente, ainda é preciso e sempre necessário, isto é, uma vigilância incansável no fazer cumprir escrupulosamente as últimas leis, regulamentos e artigos de guerra.
Por consequência, pode-se perceber o interesse da Coroa em reformular grande parte dos valores sociais da nobreza, efetuando uma reforma militar que, não só permitiu um maior controle da fidalguia, mas também, possibilitou a ampliação das negociações entre governo central e as elites locais, no que diz respeito à atuação na defesa de seus domínios.
Todos esses elementos estão diretamente relacionados com as novas perspectivas da Coroa, onde tudo estava abundantemente e solidamente sedimentado na teoria política que, até Pombal, não cessou de repetir os tópicos corporativos, descrevendo o poder real como um poder limitado, a constituição como um produto indispensável da tradição, o governo como a manutenção dos equilíbrios estabelecidos.
Nestes termos, todos os acenos da teoria política para um governo baseado na vontade, nomeadamente na vontade arbitrária do rei, eram em geral e enfaticamente rejeitados.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Enterram-se os mortos, salvam-se os vivos.
Em plena moderninade, mais uma cidade é totalmente posta ao chão pela força da natureza. Hoje o Haiti é sinônimo de caos e morte. Um País rico em história e pobre de estrutura passa pela situação mais complicada da sua tragetória. Desde do dia em que Colombo atracou seus navios próximos à sua costa em 1492, dando os primeiros sinais da existência da América e comprovando a circuferência da Terra, a ilha nunca viu um cenário tão deprimente.
Impossível não pensar como seria esse mesmo quadro de caos e destruição à mais de 200 anos atrás. Casas ardendo em chamas, famílias inteiras na rua, ausência de água e mantimentos. Toda e qualquer ajuda externa era necessária, mas as distâncias eram muito grandes e o transporte limitado. De fato, o trabalho humanitário e toda a logística que envolve a difícil tarefa de reconstruir e salvar o que sobrou, é hoje o alívio desse tormento.
Assim, o Haiti vai, aos poucos, renascendo com a ajuda dos países vizinhos, pare-passo retirando dos escombros a força para seguir em frente.
Outrossim, não podemos esquecer do papel fundamental representado pelos militares brasileiros na ilha. Desde 2003 atuando na ilha caribenha, esses homens vem fazendo um trabalho essencial para a reordenação do País que, além de tudo, ainda sofre com as consequências da guerra civil.
Durante toda a minha vida acadêmica vivenciei palestras e passeatas pedindo a saída das tropas brasileiras, alegando opressão e violência ao povo haitiano. Ora, tais pensamentos que permeiam a mentalidade dos partidários de esquerda e pseudo-pacifistas é o reflexo da total ausência de conhecimento sobre o trabalho das forças de paz.
As Forças Armadas brasileira não enviou apenas homens armados que, diga-se de passagem, são hoje o alento dessa população miserável, mas também projetos de reestruturação e organização espacial da ilha como, por exemplo, o trabalho realizado pelo Instituto Militar de Engenharia. O envio de engenheiros militares é resultado do interesse de oferecer além de ajuda humanitária, soluções de longo prazo para a população haitiana.
Desnecessário dizer o quão fundamental tem sido a presença das tropas de paz no Haiti atualmente. "Braço forte e mão amiga", o tão conhecido jargão do Exército Brasileiro é apenas um esboço do que esses homens tem como objetivo. Pois então, termino esse artigo parabenizando o trabalho dos bravos soldados em serviço no Haiti e desejando um futuro melhor para os haitianos. Afinal, o País precursor dos movimentos insurrecionais na América Colonial, conquistando através de um grito de liberdade sua independência e abolição da escravidão, não pode ter sua história encerrada de forma tão trágica. Seu povo há de renascer das cinzas e a chama da vitória voltará a queimar em seus corações.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
O queijo, os vermes, os anjos e o caos.
Esta resenha tem por escopo elucidar os principais aspectos do livro “O queijo e os vermes“, do autor Carlo Ginzburg. Para tal, será feito um diálogo com os textos trabalhados durante o curso que se correlacionam com as idéias do autor.
Destarte, o presente livro acompanha a trajetória de um personagem peculiar, que se destaca pelas idéias inovadoras e curiosas. Domenico Scandella, mas conhecido como Menocchio, parecia ser um simples moleiro, mas ao longo da narrativa de Ginzburg, percebe-se que se trata de um personagem mais complexo. Era, aparentemente, auto-ditada. Aprendeu a ler e a escrever numa época em que grande parte da população européia era analfabeta. Possuía alguma renda, não pode se dizer que era rico, mas também não era “paupérrimo”, como chegou a anunciar aos Inquisitores.
Por conseguinte, questiona-se, qual o interesse em um camponês italiano do século XVI? A resposta para essa questão vai muito além da figura de Menocchio, mas o contexto em que ele estava inserido. Menocchio teve acesso à uma séries de livros e a lendas populares que o ajudaram a construir todo um imaginário peculiar sobre fé, religião e a Igreja Católica. Tanta indagação e questionamento o levaram a ser acusado de heresia pelos seus conterrâneos e entregue aos Inquisitores.
Assim, inicia-se a pesquisa de Ginzburg sobre todo o processo dos autos Inquisitoriais de Menocchio. Procurando entender as origens de suas idéias, o autor coloca ao leitor inúmeras possibilidades de se pensar o contexto social de Domenico. Como seria possível, um simples moleiro despertar nos membros julgadores de seu processo tamanha curiosidade? Nada mais justo, do que elucidar todo um contexto no qual Menocchio estava inserido, uma mentalidade popular e intelectual cerceada de mistérios ocultos pela Igreja. É este o questionamento de Menocchio, o monopólio cristão sobre o conhecimento mundano.
Nesse caso, Ginzburg reconhece nas palavras de seu personagem histórico as inúmeras questões que perpassaram toda a Europa, como o movimento da Reforma e o Renascimento. Ali, o autor percebe os traços deixados por uma cultura intelectual e erudita mesclada com fenômenos populares. A tradição oral, as lendas medievais e a cultura popular eram canais de conhecimento que alimentavam o camponês europeu. Essa mistura de ideias, lapidadas e muito bem elaboradas na mentalidade de Menocchio, formaram uma mistura explosiva que ia muito além de modelos preestabelecidos. Tratava-se do encontro entre a página escrita com a cultura oral, formando uma cosmogonia materialista e tendencialmente científica.
Para Ginzburg, a difusão dessa cultura oral só seria possível através da criação da imprensa e do advento da Reforma. É a vitória da abstração sobre o empirismo. A imprensa teria permitido a Menocchio confrontar os livros com a tradição oral em que havia crescido e lhe conferiu os elementos necessários para organizar suas novas idéias. A Reforma, por sua vez, deu-lhe a ousadia para externar o que pensava ao padre de sua aldeia, aos seus conterrâneos e aos inquisidores.
Como afirma Pierre Bourdieu[1], não se pode construir uma trajetória sem levar em conta a estrutura da rede. Se faz necessário, conhecer os estados sucessivos do campo no qual ela se desenrolou e, logo, o conjunto das relações objetivas que uniram o agente considerado ao conjunto dos outros agentes envolvidos no mesmo campo e confrontados com o mesmo espaço dos possíveis.
Portanto, o que se destaca na obra de Ginzburg são as possibilidade de se construir a narrativa histórica. Primeiramente, pois, partindo de uma perspectiva micro-histórica, utilizando o foco em um individuo qualquer, o autor consegue aumentar sua escala microscópica e elucidar aspectos de toda uma comunidade.
Como Giovanni Levi destaca a biografia não é, nesse caso, de uma pessoa singular e, sim, de um individuo que concentra em si todas as características de um grupo.
Outrossim, a utilização de elementos biográficos para fins prosopográficos são considerados reveladores quando eles tem um interesse geral. Afinal, existe todo um contexto histórico que justifica os desvios e as singularidades do personagem Menocchio.
Assim, ainda segundo Levi, a biografia alcança sua maior importância quando permite abordar um desacordo entre as regras, as práticas e as incoerências estruturais inevitáveis entre as próprias normas. Logo, mostrando que a repartição desigual de poder, por maior e mais coercitiva que seja, sempre deixa alguma margem de manobra para os dominados, que podem então propor aos dominantes mudanças nada desprezíveis.
Desse modo, a obra de Ginzburg é mais um viés de pesquisa que permite através da micro-história, mostrar a capacidade dos atores históricos de serem também agentes ativos.
Além disso, Ginzburg também fornece ferramentas ao historiador de criar narrativas de caráter literário, dando ao seu texto uma conotação interpretativa. Seu texto, segue uma tendência quase romancista, procura responder às próprias questões presentes das brechas da documentação, trazendo para o leitor uma gama ampla de possibilidades.
domingo, 9 de agosto de 2009
O Tenente General Böhm e a Força Expedicionária de 1767
Uma vez no comando do Exército português, o Conde Lippe irá redigir novas regras e disciplinas para serem aplicadas às tropas, extendidas à além-mar pelo Tenente General João Henrique Böhm. Austríaco de nascença, Böhm era um militar de grandes experiências no campo de batalha e exemplo de disciplina militar, excelente candidato para aplicar nas tropas da América as novas regulamentações. Junto a ele, Pombal também envia, respondendo aos incessantes pedidos do então Vice-Rei do Brasil Conde da Cunha, um corpo de tropas regulares vindos de Moura, Bragança e Estremoz.
Destarte, esse será o escopo do presente trabalho, acompanhar a tragetória desses homens e as mudanças causadas com a sua chegada no Vice-Reino do Brasil.
Cerca de 2.300 homens desembarcam no Rio de Janeiro em outubro de 1767, trazendo grandes confusões para a cidade e seus representantes. Primeiramente, porque não haviam alojamentos para comportar tantos oficiais e soldados. Ciente do problema, Pombal ordena ao Conde da Cunha que os aloje nas antigas possesões dos Jesuítas ou em casa de moradores locais. Acontece que tantos homens, com costumes diferentes, pouco habituados com o modos vivendi da população local, irão causar conflitos. Serão registradas inúmeras reclamações da contuda das tropas pelos moradores da Praça, indignados com os abusos dos militares.
Durante os primeiros 6 anos no Brasil, Böhm preocupou-se em aplicar as novas regras aos regimentos do Rio de Janeiro e a treiná-los, mantendo-os sempre alerta. Seu interesse, era equipará-los aos de Portugal , de tal forma a combaterem juntos em um eventual ataque.
Devido às pressões dos espanhóis no Sul do Brasil pela Colônia do Sacramento, Böhm marcha com seus homens em 1774 na tentativa de conter maiores avanços. Voltando ao Rio de Janeiro em 1778, tais regimentos irão ser, posteiormente, incorporados aos Regimentos do Rio de Janeiro: o de Bragança passa a ser Primeiro Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro em 1793 e o de Moura o Segundo Regimento de Infantaria no mesmo ano. Apenas o de Estremoz, que marcha para o Pará, acaba por ficar na região, dado à ausência de tropa de infantaria.
Por conseguinte, esse é apenas um resumo de como serão reorganizadas as forças militares pagas do Rio de Janeiro, após a chegada do Tenente General Böhm e sua força expedicionária. Teremos como objetivo, através de fontes documentais contendo as relações nomiais, tempo de serviço e soldos, acompanhar as tragetórias dos oficiais e oficiais inferiores desses regimentos. Tal estudo, tem a pretensão de enxergar de perto, através da micro-história, a dinâmica social desse grupo, tão importante para a formação do embrião da estrutura militar brasileira.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Holocausto
Ambas as obras tratam do tema Holocausto, com peculiaridades próprias e, até mesmo, em alguns momentos, com ideias distintas.
Primeiramente, porque o livro de Levi é mais do que um testemunho, trata-se de uma experiência de vida. O autor vivenciou a realidade de um campo de concentração, já no final da Segunda Grande Guerra. Abordando detalhes, Levi invade a memória do leitor com descrições que podem causar, em muitos, verdadeiros arrepios.
Já a obra de Resnais, muito embora, a realidade do campo de concentração esteja longe de ser um cenário de paz e tranquilidade, o diretor consegue trazer ao espectador um imaginário muito próximo desse contexto. Isso porque Resnais estabelece um paralelo entre drásticas imagens do campo em plena atividade e desativado. Quando ausente de sua antiga função, o campo lembra uma fazenda em ruínas. No entanto, é a partir da exibição de imagens do cotidiano do campo, quando ativo, é que a assistência entra em contato com a triste realidade do Holocausto.
Sendo assim, é importante ressaltar duas características deveras relevantes sobre as obras em foco. Como pode-se perceber, a palavra Holocausto, em nenhum momento é utilizada. Tal terminologia, à época, ainda não era uma referência para as vítimas do Nazismo.
Além disso, diferentemente de Levi, Resnais procura não focar diretamente os judeus, ao mostrar a realidade do campo. O diretor preocupa-se em destacar o sujeito em si, expondo que não só judeus foram vítimas das tropas SS germânicas.
Nesse ponto, Levi também apresenta ao leitor, de maneira mais superficial, a grande variedade de pessoas que estavam sujeitas ao preconceito nazista. Em espectro que ultrapassava o anti-semitismo, criminosos, políticos, deficientes físicos, homossexuais e negros também foram alvo do nazismo.
Por conseguinte, diante de uma variedade de “raças” no campo, havia uma lógica hierárquica que as diferenciava. Junto às roupas dos refugiados eram afixadas as respectivas definições. Triângulos de cores distintas costurados aos uniformes, além da numeração tatuada ao corpo, distinguiam os presos.
Ademais, o seres humanos ali confinados deixavam de ser indivíduo, perdendo suas próprias identidades, sendo resumidos a um mero número, ou praticamente nada.
Essa destituição da personalidade humana retrata toda a lógica da existência de campos de concentração. É preciso ter incrustado em si uma ideologia muito forte, ao ponto de conseguir abster-se de qualquer piedade ou compaixão pelo próximo, para que qualquer cidadão, em pleno domínio de suas faculdades, possa assentir com o funcionamento de um campo de concentração.
Dentro desse imaginário, lentamente lapidado na memória do alemão nazista, é que foi possível computar tantas mortes, em tão curto período. Ao apontar o judeu como inferior, raça espúria, que deve ser subjugada e, até mesmo, dizimada, é que se alcança esse objetivo mórbido.
Diante disso, reduzindo-se aqueles homens e mulheres praticamente a pó, permitindo que padecessem de fome, sede e frio, deixou-se de enxergar um ser humano igual a si, para se perceber uma “coisa” inferior. São nestas cenas de “Noite e Neblina”, somadas à narrativa descritiva de Levi, que se constrói ao menos uma idéia do que pode ser a realidade do campo.
Em muitos momentos, o espectador se percebe violentado por imagens de tanta brutalidade. Talvez, pior do que vê-las, seja buscar, no fundo de seu âmago, uma idéia do que poderia ser a vida de Levi naquele ambiente tão lúgubre.
Dessa forma, são muitos os momentos em que o leitor se questiona e é questionado pelo autor sobre moral e ética. É possível que esses valores existam em contexto social primitivo? Tanto Levi como Resnais mostram que a permissividade e as atitudes amorais grassam, quando o ser humano se encontra na irracionalidade.
Na disputa pela sobrevivência, valores morais e éticos são ignorados, mesmo que inconscientemente. Desnecessário dizer que havia o mínimo sentimento fraternal dentre os presos, mas eles se confrontavam, em muitos momentos, com a necessidade de lutar pela vida.
Nesse ponto, Levi é bastante categórico ao esboçar um sentimento de revolta sobre os Kappos. Estes, também prisioneiros, eram designados para manter a ordem em cada Kommando específico. No geral, não eram judeus, a “raça” considerada mais baixa dentre as outras. Mas, normalmente eram criminosos ou políticos.
Desse modo, ao colaborarem com os nazistas, delatando os infratores e, até mesmo, violentando os demais presos, os Kappos tinham prestígio junto aos SS. Portanto, desfrutavam de regalias, tais como quarto individual, ração majorada, acesso a pequenos utensílios raros no campo — colher, luvas, sabão etc.
Por conseguinte, inserido nesse contexto de privilégios, surge um mercado interno de contrabando, no qual a moeda de troca é, na maioria dos casos, o pão. Havia um verdadeiro escambo nos campos, onde trocava-se tudo. Prisioneiros abriam mão de sua ração para obter objetos úteis e, praticamente, indispensáveis à sobrevivência.
Dessa forma, enclausurados em um mundo à parte da realidade, os prisioneiros dos campos criavam para si um ambiente próprio, repleto de situações que refletiam a luta pela sobrevivência. Por isso, talvez, Resnais destaca o mundo à parte existente nos campos. Ali era possível encontrar um hospital, bordel e, inclusive, uma prisão, por mais absurdo que pareça, já que o conceito do campo, em si, é de cárcere.
Em tese, conclui-se que, apesar das exaustivas tentativas de se obter uma descrição ou uma discussão sobre o Holocausto, os limites da verbalização cerceiam os autores, posto que palavras jamais conseguirão descrever o que realmente aconteceu no interior daqueles ambientes mórbidos e cercados por arames farpados.
Nem mesmo aqueles que viveram essas experiências ou as imagens registradas do dia-a-dia dos campos de concentração seriam capazes de esboçar as agruras a que tantos homens e mulheres foram expostos.
Fica portanto, apenas, a questão que jamais se calará: de quem foi a culpa por tudo isso? Resnais ressalta essa pergunta, mas, como todos, não consegue respondê-la. “Je ne suis pas responsable”, dizem eles. Então, pois , restam apenas as tristes lembranças que não devem ser esquecidas, para que sirvam de exemplo à humanidade e impeçam que tais situações venham a se repetir.